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No primeiro domingo do mês de setembro e nos dois dias anteriores ocorre, todos os anos, a Festa de Nossa Senhora da Guia. No primeiro dia de festividades ocorre a famosa e muito apreciada Procissão noturna das Velas.
As lendas, transmitidas oralmente desde tempos antigos, relatam aparições misteriosas — ora de uma menina formosa que se penteava, ora de um menino, avistados pelos pastores, desaparecendo quando estes se aproximavam. Consideradas milagrosas, essas visões terão levado, mais tarde, à construção de uma Ermida sob a invocação de Nossa Senhora da Guia.
Documentos antigos, datados dos anos seiscentos do milénio passado, dão prova da existência dessa pequena Capela, época em que terá, muito provavelmente, sido erigida. Contudo, a romaria e a fama crescente nesta devoção ocorreram ao longo da primeira parte do século XVIII. Com as muitas esmolas obtidas, tornou-se possível a construção de uma nova Capela, iniciada pouco depois de meados desse século, prolongando-se os trabalhos até ao início do século XIX.
Assim, a romaria a Nossa Senhora da Guia do Avelar, no século XIX, tinha já ultrapassado há muito o estatuto de simples festa local. Tornara-se um acontecimento de grande projeção, capaz de extravasar o âmbito regional e atrair, todos os anos, nesse tempo, mais de 10 mil romeiros. A multidão afluía para participar numa combinação muito própria de cerimónias religiosas, feira anual e festividades populares, onde conviviam práticas de devoção, rituais de promessa e agradecimento, música, divertimentos e manifestações culturais variadas.
No centro desta dinâmica estava a devoção à imagem da Senhora da Guia e a procura do seu amparo: romeiros vinham movidos pela fé, pelo desejo de auxílio e pelo impulso de cumprir ou pagar promessas. O ambiente particular da romaria, marcado pela intensidade da participação coletiva e pela riqueza ritual, atingiu então um ponto culminante, que se prolongaria ainda pelas primeiras décadas do século XX. Entre todos os momentos, destacava-se então um ritual de enorme impacto simbólico e emocional: a procissão e o célebre “milagre do bolo” junto ao forno, que se tornara a imagem mais memorável e aguardada da festa.
Uma fotografia bem conhecida, que ilustra este texto, presumivelmente de 1891, capta precisamente esse clímax ritual. Nessa imagem vê-se um homem — que se supõe ser Teodoro Nunes — diante da imagem da Senhora da Guia acompanhada por eclesiásticos, rodeado por uma multidão compacta. O homem preparava-se para entrar no forno que estivera aceso durante muito tempo, para aí “deitar” o bolo a cozer. A cena sugere a solenidade e o risco que tornavam o episódio tão impressionante.
A fama da romaria era tal que, em 1899, nela esteve o conhecido músico e pintor Alfredo Keil, autor da música “A Portuguesa” (1890), que viria a ser o Hino Nacional a partir de 1911. A presença de Keil, enquanto figura cultural de grande projeção, confirma o alcance e a notoriedade do evento. Nesse mesmo ano, uma publicação editada em Lisboa deu grande destaque à “Festa de Nossa Senhora da Guia, do Avelar”, através de um artigo descritivo extenso e de esboços desenhados pelo próprio Keil.
Do conteúdo dessa notícia de 1899 sobressaem vários pontos essenciais. Primeiro, a festa já durava três dias, o que evidencia uma organização complexa e uma economia festiva que ultrapassava o simples dia santo. O texto identifica também personalidades destacadas — como Alfredo Manso e Alfredo Simões Dias — e sublinha que se tratava de uma das romarias mais concorridas da Província da Estremadura.
A vila transformava-se por completo: engalanava-se, e as pessoas apresentavam-se com as melhores vestes, exibindo artigos de ouro antigos e vistosos, numa espécie de demonstração coletiva de estatuto, orgulho e solenidade. A dimensão sonora e performativa era central: havia muita música, incluindo adufes da Beira Baixa, além de cantares locais e de Coimbra, Banda Filarmónica e o inevitável foguetório, que ajudava a construir o clima extraordinário da festa.

A componente religiosa mantinha-se igualmente forte e prestigiada: acorriam pregadores afamados, e as cerimónias tinham uma intensidade que atraía fiéis de diferentes origens. A notícia refere duas das três procissões, mencionando explicitamente a do sábado, com o ritual do bolo, e a do domingo. Contudo, omite a procissão de sexta-feira, que noutros textos aparece associada à visita da imagem da Santa ao Hospital, sugerindo que o programa era mais amplo e possuía dimensões assistenciais e comunitárias, para além do cerimonial público.
A descrição também destaca aspetos de comportamento e cultura material: durante as procissões, as pessoas usavam adereços curiosos, e haveria mesmo exageros no modo de cumprir promessas, o que aponta para uma religiosidade popular intensa, por vezes dramatizada, onde o corpo e os objetos tinham papel expressivo. Um elemento particularmente sugestivo é o uso do mato na preparação do forno: os romeiros colocavam-no eles próprios, em fila, contribuindo fisicamente para alimentar o fogo, como se o ritual exigisse participação concreta e coletiva. Assinala-se ainda o volume de ofertas dirigidas à Senhora da Guia e o valor patrimonial do templo, com referência à talha dourada e a belos azulejos. Curiosamente, mesmo naquela época já se reconhecia a antiguidade da romaria: não se sabia ao certo quando começara.
Os desenhos associados a Keil ajudam a reconstituir o cenário festivo: aparecem arcos, postes e bandeiras, que, juntamente com o foguetório, a feira anual, a música, os cantares e os trajes, compunham um ambiente visual e simbólico singular. Junto ao forno, fumegante, parece existir uma rampa ou uma meda de mato e lenhas para a sua alimentação, o que reforça a centralidade material do ritual do bolo no espaço do arraial.
Alguns anos depois, em 1907, Alfredo Keil publicou a obra “Tojos e Rosmaninhos”, reunindo desenhos, partituras e versos inspirados na região a norte de Tomar, em torno do Zêzere, que percorreu. O livro inclui um capítulo dedicado ao Avelar, trazendo pormenores particularmente ricos. Nos versos, Keil evoca uma cena de namoro e desafio entre uma moça e um rapaz da Serra — onde prosperavam os lanifícios — com uma roca de fiar sobre a mesa e a ideia de que, dali a um ano, teriam uma menina, “por vontade” da Senhora da Guia. Para além do valor poético, o texto sugere um dado sociocultural interessante: sob a “bênção” da Senhora da Guia, foram muitos os casamentos entre rapazes e raparigas da Serra Avelarense (associados a famílias precursoras dos lanifícios) e jovens da Vila, onde se fixariam. A romaria aparece assim também como lugar de encontro, sociabilidade e alianças, com impacto na estrutura social e económica local.
Keil regista ainda detalhes etnográficos do imaginário romeiro: fala do registo milagroso da Santa colocado nos chapéus dos homens, dos cantares populares entoados no caminho de regresso, e das conversas animadas sobre tudo o que se viu e viveu — sermões, procissões, ornamentos, promessas, o “deitar do bolo”, e também o que se comia e bebia. A romaria surge, portanto, como experiência total: religiosa, social, estética e sensorial, capaz de marcar a memória coletiva e alimentar narrativas partilhadas.
Apesar das transformações posteriores, a romaria manteve relevância durante muito tempo. Em 1945, mesmo depois da proibição episcopal, nos anos 1920, do “milagre do forno”, a festa ainda era descrita como notável. Um testemunho dessa época sublinha que o povo crente — “da região e de fora” — continuava a acorrer em multidão para homenagear a Mãe do Céu. Para além da religiosidade e do respeito, a festa tornava-se uma espécie de “certame etnográfico”, pela variedade e número de participantes. O sábado permanecia o ponto alto, com procissões “fora do vulgar”, peregrinações das freguesias vizinhas e momentos como a Hora da Adoração, com participação coral, mostrando que, mesmo sem o ritual do forno, subsistia uma estrutura cerimonial forte e uma dimensão coletiva expressiva.
O ritual do forno pode ser enquadrado numa rede mais ampla de tradições regionais. Existiam práticas semelhantes na região de Pombal, com fama de remontarem à época medieval, associadas a agradecimento a Nossa Senhora. Há referência a relatos do século XIX (por exemplo, em 1859) de procissões com cozedura de bolo e entrada de um homem no forno, levando um cravo do andor, em paralelo com o que se fazia no Avelar. Também em Abiúl se menciona tradição antiga, alegadamente desde cerca de 1561, ligada a “festas do bodo” surgidas para celebrar o fim de uma pandemia; essas festas incluíam ainda outros elementos festivos, como touradas — algo que, de forma curiosa, se chegou a ponderar também no Avelar. Este enquadramento mostra que o “milagre do bolo” não era um fenómeno isolado, mas parte de um repertório mais vasto de religiosidade popular, gratidão coletiva e dramatização ritual.
Um elemento material e simbólico no amplo espaço da festa era o coreto do Terreiro da Guia, também posteriormente chamado “farol”. Os documentos referentes a 1899 não o mencionam, mas vários outros sugerem que a sua construção foi anterior. Uma publicação de 1904 descreve um amplo arraial contíguo ao Hospital e à Capela, “calcetado, arruado e arborizado”, com um coreto ao centro, qualificando-o como um dos primeiros da província. Uma imagem de 1906, em postal, mostra o coreto engalanado durante a romaria, com bandeira monárquica no topo e a estrela da Senhora da Guia.

Há ainda uma alusão a 1885, num artigo ligado a uma publicação no âmbito da Universidade de Coimbra, cujo autor — identificado apenas como “F.” — terá estado na romaria desse ano e ficou profundamente impressionado, repetindo exclamações como “admirável”. Nesse relato, surgem passagens que apontam claramente para a existência do coreto e para a sua centralidade nas noites festivas: bandeiras a tremular, fogo de artifício, iluminação no coreto e filarmónica a tocar até alta noite.
A música, aliás, era uma componente decisiva das festividades. As filarmónicas ganhavam popularidade e prestígio; as missas eram cantadas e acompanhadas por instrumentação; vinham atuar bandas da região (como a do Espinhal, então muito recente, e frequentemente a de Penela). Para além disso, grupos de cantares de várias proveniências juntavam-se aos temas locais que ecoavam espontaneamente por todo o arraial. O coreto oferecia vantagens evidentes: do alto, amplificava-se o efeito sonoro e visual, reforçando o carácter cénico da festa.
O coreto do Avelar terá sido dos primeiros na região e pode ter sido desejado desde tentativas antigas de formar uma filarmónica (meados do século XIX). Comparações com outros coretos regionais (construídos mais tarde, em algumas vilas, já no século XX) ajudam a perceber a precocidade da estrutura no Avelar. Com base em fontes coevas, sugere-se que o coreto antigo tenha sido construído por volta de 1882 pelo primeiro administrador da Capela e Hospital da Senhora da Guia, Augusto Lopes da Costa Rego.
Mesmo depois de desmantelado nos anos 60 do século XX, esse coreto manteve-se como parte da “alma” e do imaginário local: continua a ser recordado em conversas com orgulho e admiração, funcionando como elemento identitário do passado. A designação popular de “farol” é explicada por hipótese interessante: poderá ter-se ligado à eventual função de iluminação pública da praça, talvez com sistema a petróleo (há notícia municipal sobre verba para iluminação e até um poema intitulado “Luz” que evoca o “FAROL que nos guia na escuridade”). Em alternativa — ou cumulativamente — a origem do nome pode estar na própria iluminação festiva do pavilhão do coreto, especialmente em dias de grande festa, reforçando a imagem de um ponto luminoso, central e orientador no espaço comunitário.
Nesse relato de 1885, é-nos oferecido um quadro vivo da romaria nesses dias (4, 5 e 6 de setembro). A descrição fala de romeiros vindos de terras remotas, festividades “muito além do ordinário” e receitas consideráveis para a tesouraria (sinal da escala económica da festa). Menciona-se a presença de catorze mil pessoas, o templo repleto de fiéis “de todas as classes”, ladainhas cantadas com grande instrumental e, no dia 5, missa solene com exposição do Santíssimo. A procissão aparece como espetáculo organizado: filarmónica, força de cavalaria a abrir caminho e a guardar a retaguarda, “anjos” ricamente ornados diante do pálio, pendões, bandeiras e cruz paroquial. À noite, o fogo de artifício e balões luminosos produziam um efeito “brilhantíssimo”. No dia 6 repetiam-se atos religiosos e, no final, fazia-se a distribuição do bolo como “preciosa relíquia”, confirmando a força do ritual e a forma como o alimento se tornava objeto de devoção e memória.
Constando de um Livro publicado no final de 2023, elaborado sob coordenação científica da Universidade de Coimbra, a Festa da Senhora da Guia do Avelar foi considerada, pela então Direção Regional de Cultura do Centro, como património cultural imaterial da Região Centro.
Em síntese, uma romaria que foi, durante muito tempo, um grande acontecimento coletivo, distintivo na região pela sua escala, pelo seu cerimonial, pela riqueza cultural e pela intensidade da religiosidade popular. A Senhora da Guia funcionava como eixo de fé, encontro, promessa e identidade. O “milagre do bolo” e o forno eram o símbolo máximo dessa singularidade; a feira, a música, os cantares, as bandeiras, o fogo e o coreto/farol construíam um cenário total onde sagrado e profano se entrelaçavam. Mesmo após proibições e mudanças, a romaria conservou traços de grandeza e permaneceu, na memória e na narrativa local, como marca profunda da história e da cultura do Avelar.
Livro: Os Antigos Avelarenses e sua parentela vicinal. Raul Manuel Coelho. 2025.
Livro: O meu Avelar. António Nunes Pais. 2021.
Livro: Memórias de Filarmónico(s) e outras histórias de Avelar. Eduardo Rego. 2025.
Livro: Saber Ser. Saber Fazer. O Património Cultural Imaterial da Região Centro. https://www.ccdrc.pt/wp-content/uploads/2024/03/Saber-Ser-Saber-Fazer_web.pdf
Fotografia: espólio da Fundação de Nossa Senhora da Guia / exposição temática da Associação Memória Avelarense.
Revista: “Occidente” – Nº 746 de 20 de setembro de 1899.
Jornal: reprodução de artigo de 1885, em: “A voz da Graça” de 15/11/1987. p. 3.
Publicado por: Freguesia de Avelar
Última atualização: 09-05-2026